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A normalidade

Luis Fernando Verissimo

Valtão era o que se costuma chamar de “solteirão”, uma condição que sua irmã Valkiria não aceitava.

- Você precisa se casar, Valtão.

- Por quê?

- Porque não fica bem um homem da sua idade solteiro.

O Valtão tinha quase 50 anos. Entre as muitas coisas que Valkiria achava que não ficavam bem, um homem de quase 50 anos ainda solteiro era das que ficavam piores.

- Mas eu estou satisfeito assim, Val.

- Eu sei. Mas não é, não é...

- O que Val?

- Normal.

Valkiria era casada. Com o Pereirinha que, diziam, tinha uma noiva em cada bairro da cidade e gastava uma fortuna só em transporte. Valkiria era normal. Valtão não era. Valtão precisava se casar para normalizar sua vida. Para contentar sua irmã. E para ficar bem.


- Vou te apresentar uma pessoa – anunciou Valkiria, um dia. – Vocês vão se dar muito bem. Têm muitas coisas em comum.

- O que, por exemplo?

- Ela também gosta de cinema. Eu acho. E teatro. Adora teatro.

- Eu não gosto de teatro.

- Não sei se ela gosta de teatro, mas é uma pessoa interessantíssima. Tem renda própria e não é feia. Quer saber o nome dela?

- Não.

- Verônica. Não é bonito? Verônica. Vocês vão se dar muito bem.

- Por que você acha isso, Val?

- Porque numa coisa vocês são iguais. No que interessa. Ela também é solteirona.

Para Valkiria, mulher com quase cinquenta e ainda solteira também era uma aberração. Se conseguisse que o irmão e a amiga se casassem, estaria acabando com duas aberrações, por assim dizer, com uma cajadada só. E trazendo dois para a normalidade.


O que os dois tinham em comum era que Verônica também estava cansada das pressões para se casar que sofria de amigos como a Valkiria e da família. No primeiro encontro, concordaram. Se casariam. Sem namoro, sem noivado, sem se conhecerem bem e sem demora. Desde que algumas coisas ficassem acertadas.

- Eu leio jornal na cama e durmo só de camiseta.

- Antes de tomar uma xícara de café de manhã, não falo com ninguém. Só rosno.

- Tenho horror de sol, de miúdos, de cheiro de incenso e de pagode.

- Você raspa a manteiga ou tira pedaço?

- Raspo. E enrolo o tubo de pasta de dente.

- Eu não enrolo, mas não tenho preconceito.

- Uma coisa: o controle remoto da televisão fica comigo.

- A não ser quando tiver futebol.

- Combinado.


Casaram-se numa cerimônia simples na casa da Valkiria, que estava radiante. E, é claro, divorciaram-se pouco tempo depois da lua-de-mel em Porto Seguro. Valtão não sabia como contar para a irmã do divórcio. Simplesmente não dera certo. Os dois tinham hábitos de solteirões muito arraigados. Tinham tentado, mas... Valkiria compreenderia.

E, para sua surpresa, Valkiria compreendeu. Hoje em dia é normal ser divorciado, disse ela. A maioria das suas amigas era de divorciadas. Ela mesma só não era divorciada porque o Pereirinha dizia que acreditava demais na santidade do casamento e não aceitava.


Domingo, 23 de novembro de 2008.



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